A redução da taxa de juros no Brasil está se tornando um braço de ferro entre governo e bancos privados, mas, como diz o ditado, números não mentem. Segundo Marcelo Maron, Diretor do Grupo Par e Consultor de Finanças Corporativas, a taxa de juros no Brasil é, sob qualquer ângulo que se olhe o problema, abusiva:
“O spread bancário no Brasil é de 31,1% e é o terceiro maior do planeta, superado somente no Congo e Madagascar. Para quem não sabe, o spread bancário é, a grosso modo, o lucro bruto dos bancos, pois é composto pela diferença de quanto o banco paga a quem aplica o dinheiro em sua instituição e quanto cobra daquele que pega dinheiro emprestado. Para se ter uma ideia comparativa, nossos vizinhos argentinos possuem um spread de 1,4%, a Suíça de 2,7% e o Chile de 3,5%. Os bancos brasileiros são uma verdadeira máquina de fazer dinheiro às custas do endividamento de quem precisa de recursos”, assinala Maron.
De acordo com o consultor, os bancos alegam que a inadimplência força os juros para cima, mas essa explicação não chega a ser convincente:
“O que pode estar ocorrendo é que a inadimplência elevada ocorre, exatamente, em função dos juros exorbitantes. Não são poucos os casos nos quais os endividados chegam a uma situação de falência pessoal em função dos juros elevadíssimos. Nas dívidas de cartão de crédito, verdadeiro vilão da classe média, até há pouco tempo ainda era possível observar juros de 14% ao mês. Com as novas taxas praticadas pelo mercado, em média em 6% ao mês, a diferença de impacto nas dívidas é colossal. Veja um exemplo: numa dívida de R$ 2.000,00 pelo prazo de 3 anos, sem amortização, o valor para quitação no final desses 36 meses seria de mais de R$ 223 mil, enquanto que agora, com juros de 6%, este valor não passará dos R$ 17 mil. Repare que uma diferença de 8 pontos percentuais na taxa de juros pode tornar uma dívida pequena numa dívida praticamente impagável”, esclarece Maron.
No cheque especial, ele explica, observamos nos últimos dias uma redução também significativa na taxa de juros, dos 8,31% praticados pelo Banco do Brasil a taxa foi derrubada para 3,94% ao mês, percentual que era obtido, até muito pouco tempo atrás, somente com garantias e análise de crédito mais profundas.
Para Maron, a utilização dos bancos estatais para forçar a derrubada da taxa de juros foi uma medida acertada: “Se uma empresa é estatal, ela deve cumprir, então, seu papel social. Mais importante que os bancos do governo darem tanto lucro quanto os privados, é eles contribuírem para que a economia do país seja mais saudável”, concluí.


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